Yamas e Nyamas - Valores humanos para uma vida feliz. . 30/01/10
Nos dias de hoje o estudo dos valores éticos (yamas e nyamas segundo Patanjali) como forma de alcançar a felicidade plena, são considerados tão básicos , que parece que as pessoas esqueceram o tudo o que "mamãe ensinou". Desde a antiguidade esses valores já eram fundamentais para o bom convívio social e continuam sendo importantes atualmente, desde qe os coloquemos em prática.
Na filosofia do yoga, Patanjali expõe os yamas e nyamas como base, o início para se alcançar o estado de yoga (moksha – libertação). A ética como objetivo de acalmar a mente. Esses principios éticos tratam para conduta pessoal e social e de como nossos atos trazem implicações a nós mesmos. Não existe a noção do pecado ou de alguém que irá nos castigar se infringirmos esse código ético.
No hinduísmo, a ética se chama Dharmashastra, é a ciência da justiça humana e divina. É um sistema que formula linhas guia para nos ajudar a decidir entre o bem e o mal, o certo e o errado.
Algumas definições:
Ética:
Segundo o dicionário Houais:
Ética é o estudo das finalidades últimas, e universalidade, ideais e em alguns casos, transcendentes que orientam a a ação humana para o máximo de harmonia, excelência ou perfectibilidade.
Segundo Leonard Boff: ética “é aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente, sustentável, psicologicamente integrada e fecunda”.
Assim podemos entender ética como valores que definem uma convivência amigável, segura.
Este artigo tem o objetivo de nos fazer lembrar da importância de uma conduta ética para estabelecer uma convivência pacífica, harmoniosa e feliz individualmente e socialmente. Patanjali chama de Sarvabhauma, supremos ou universais, pois valem para todas as pessoas e em todas as circunstâncias.
Segundo Taimini, o principal objetivo dos yamas e nyamas é eliminar todas as perturbações mentais e emocionais, que caracterizam a vida de um ser humano comum. Nenhuma libertação de perturbações emocionais torna-se possivel até as tendências abordadas em yamas e nyamas sejam pelo menos suficientemente dominadas.
Ódio, desonestidade, fraude, sensualidade e possessividade são alguns vícios comuns e inerentes a raça humana e enquanto o ser humano estiver sujeito a esses vícios sejam em suas formas densas, sejam em formas sutis, sua mente permanecerá vítima de distúrbios emocionais violentos ou dificilmente perceptíveis, que em última análise tem origem nesses vícios.
YAMAS – Controle , domínio, refreamento. São de maneira geral proibitivas e morais.
1 – Ahimsá - Não violência.
Não violencia física, mental, emocional, por palavras, gestos, ações, pensamentos contra a si próprio, aos outros e ao mundo.
O Cultivo da não violência em relação a si próprio é essencial para que a não violência em relação ao mundo possa de fato tornar uma realidade.
Por que eu não deveria ferir os outros?
Porque eu não gostaria de ser ferido.
Gloria Arieira, afirma que ahimsá exige atenção e sensibilidades diária em todas as áreas da vida. É um valor que se expressa na atitude em relação as plantas tanto quanto em relação aos seres humanos e aos animais. Ahimsá é um valor pela não destruição ou não dano a qualquer parte da criação do qual fazemos parte.
Os outros yamas a seguir são consequências naturais da não violência.
2 – Satya – verdade.
Cultivar a verdade, não mentir.
É ser verdadeiro, nos pensamentos, sentimentos palavras e acões. Taimini
comenta que a mentira cria uma espécie de tensão mental que nos impede de harmonizar e tranquilizar a mente.
Evitar a falsidade em todas as suas formas, tanto nas relações com outras pessoas como consigo mesmo. Satya é procurar sempre a verdade não importa onde ela possa nos levar.(Pedro Kupfer)
Para Vyása “a palavra pronunciada com o propoósito de comunicar o próprio pensamento a outrem é verdadeira, desde que não engane ou confunda. A palavra deve-se pronunciar para não para ferir mas para beneficiar, poque se ferir não produzirá harmonia apenas sofrimento.”
3 – Asteya – Não roubar
Não roubar, não cobiçar ou invejar bens e conquistas dos outros.
Não é apenas não roubar, mas eliminar totalmente o impulso de se apoderar de objetos (ou idéias) alheios,é a abstenção dessas tendências, mesmo que em pensamentos.
O professor Acdil Palkhiavala, comenta também que asteya não é apenas não roubar mas desenraizar crenças subconscientes ligadas a falta e a carência que causam cobiça e a necessidade de acumular coisas.
Taimini coloca asteya também em relação a abstinência de qualquer tipo de apropriação indébita. Não devemos nos apropriar não apenas do dinheiro ou bens, mas até de coisas intangíveis, porem altamente vantajosas, como créditos, por coisas que não fez ou privilégios que nãolhe pertençam . Somente quando uma pessoa consegue eliminar até certo ponto as tendências de apropriação indébita em suas formas mais gorsseiras, é que começa a descobrir as formas mais sutis de desonestidade que pemeiam nossas vidas e que dificilmente nos conscientizamos.
4 - Brahmacharya - moderação dos sentidos, foco, celibato, parceiro fixo, não desvirtuar a sexualidade.
Iyengar argumenta que a maioria dos yogins e sábios antigos eram casados . Para ele a prática de brahmacharya é ver o sagrado em todas as coisas.
Brahmacharya também pode ser visto como moderação dos sentidos . Quando os sentidos estão esparramados, estamos fora de nosso centro. A busca incessante pelo prazer nas coisas que estão fora de nós, nos afasta da nossa natureza.
Nos dias de hoje somos “forçados” a fazer mais e a ter mais. A prática de brahmacharyanos ensina a “Ser”, sem dependermos a todo moento de algo externo a nós. Também nos ensina a não fazermos mais, mas fazermos como ato sagrado. Praticar brahmacharya não significa absternos do prazer ou deixar de buscar prazer no que fazemos, mas não sofre na busca pela repetição do prazer.
5 – Aparigraha - não possessividade.
Abstenção da ganância e do ato de acumular. Aparigraha não significa que devamos banir nossos desejos e aspirações e nos livrarmos de nossas posses para sermos felizes. O Problema é o vício em possuir mais e mais e nunca estar satisfeito com o que se tem e a constante preocupação em manter, não perder, aquilo que se tem
Não é a quantidade de coisa que se tem, mas sim, nossa atitude em relação a elas. Podemos possuir poucas coisas, mas o instinto de possessividade ser muito forte. Por outro lado, podemos estar nadando em dinheiro e ainda sim estar livre de qualquer sentimento de posse. É saber da impermanência das coisas e que a felicidade verdadeira não está nas posses que se tem.
“Ver o correto depende do agir de modo correto.”Sutra II – 31
A pergunta agora é o que é correto?
Isto depende da interpretação de cada um.
Como fazer então?
Você deve fazer o que você julga correto e não o que os outros julgam correto. Se você agir errado, pensando que é o correto, a natureza lhe ensinará, através do sofrimento, mas avontade de acertar a qualquer custo irá progressivamente clareando a visão, conduzindo – o ao estágio onde infalivelmente possa ver o certo.
Ver o correto depende do agir de modo correto. Daí a importância da retidão no caminho do yoga.
NYAMAS - são disciplinares e construtivos
1 - Saucha – Pureza, purificação.
Segundo Swami Dayananda mestre de Vedanta, Saucha se divide em:
Pureza física externa – manter a higiene pessoal, ambiental. Corpo limpo, roupas limpas, casa limpa fazem a vida mais agradável, além de produzir uma certa atenção e vivacidade na mente.
Pureza interna – significa limpeza da mente.
O que é limpeza da mente? O que torna uma mente impura?
Cíúmes, raiva, zanga, medo, egoismo, vaidade, autocondenação,culpa, orgulho,possessividade, todas estas reações negativas e o clima de ressentimentos e desespero que surge da produção das impurezas da mente.
Assim como todos os dias envolvido em minhas atividades, pequenas partículas de poeira assentam em minha pele, da mesma forma nas minhas relações com pessoas e circustâncias, minha mente adquire impurezas diariamente. Manchas de inveja aparecem, traços de possessividade se estabelecem, uma poeira fina de autocrítica misturada a culpa e auto-condenação espalha-se, associados aos meus gostos e aversões que poduzem desejos e repulsas.
Enquanto houver vida no corpo, diariamente trabalho para alimpeza física e mental até o estabelecimento do autoconhecimento, quando a limpeza mental acontece minha falsa indentidade com a mente se esvai.
Como limpar a mente?
Patanjali diz : Pratipaksha bhavana..
prati – oposto;
paksha – posição, ponto de vista;
bhavana – pensar ou estado de pensar;
Pratipaksha Bhavana é tomar deliberadamente o ponto de vista oposto, por vontade própria. Pensar o oposto, por vontade prórpia . Pensar o oposto de pensamentos impuros. Todos os hábitos tem suas raízes nos maus hábitos pensamentos e atitudes.
Quando pratipaksha bhavana acontece, novos e desejáveis canais mentais são criados pelos novos pensamentos nos quais a energia mental começa a fluir, em uma medida crescente, enfraquecendo e aos poucos substituindo os hábitos indesejáveis de pensamentos e atitudes equivocados deles derivados.
2 - Santosha – Contentamento
É a capacidade de manter-se satisfeito aconteça o que acontecer. É uma condição extremamente positiva e dinâmica da mente. (Taimini)
Marcos Rojo afirma: “é dar valor ao que se tem e não ficar olhando o que está faltando”.
O Cultivo de extremo contentamento e da consequente tranquilidade é resultado de prolongada auto disciplina e de passar pelas experiências que implicam dor e sofrimento e vêlas como oportunidade de crescimento. (Taimini).
3 – Tapas - Determinação
Ascese, calor, força de vontade,esforço para alcançar um objetivo.
Esforço envolve intensidade e persistência.
“O esforço conduz à realização”
“Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escritura, tal é o tapas de palavra. A Serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente.”Bhagavad Gita. XVII: 15-16.
4 – Swadhyáya – auto estudo
Auto estudo e estudo das escrituras. É o estudo da metafísica do yoga e de si próprio, abrange não apenas o autoconhecimento obtido através da reflexão sobre a sabedoria das escritura mas a aplicação prática desse conhecimento.
O Swádhyaya alarga os horizontes do intelecto, enriquece e estimula a prática.
5 – Iswara Pranidhana – Entrega
É interpretado como entrega a Deus e pode ser vista como um ato de entrega, a algo maior que si próprio.
Significa fazer o melhor que podemos, sabendo que o final não está em nossas mãos. Se aproxima muito do conceito de fé Exposto por Alexander Lowen: “A fé é uma qualidade do ser de estar em contato consigo mesmo, com a vida e com o universo. É uma sensação de pertencer a uma comunidade, a um país e à terra. acima de tudo é a sensação de estar assentado no próprio corpo, na própria humanidade e na sua própria natureza animal. Ela pode ser todas as coisas porque é uma manifestação da vida, uma expressão da força vital que une todos os seres.”
A melhor definição de Iswara Pranidhana está no Bhagavad Gita: Bhavitam Bhavati Eva - “O que tiver que ser será “, também no Bhagavad Gita um exemplo do sentido de Iswara Pranidhana: “ seu dever é agir, sem procurar recompensas”.
Seguir totalmente esses preceitos é por si só uma prática desafiadora que requer muita atentividade e sabedoria para encarar as possíveis falhas, afinal esses valores são para seres humanos.
É importante perceber também quando infelizmente não conseguimos manter um ou outro valor, porque a partir dessa consciência temos a oportunidade de observar os resultados de nossas ações e então ter aprender mais uma lição de nossa grande escola da vida, sem culpas sem julgamentos mas com firmeza.
Fonte: Revisão de Literatura produzida e organizada por Ana Cristina da Luz
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